Domar os demônios
Faz mais ou menos um mês que comprei "Miguel e os Demônios ou Nas delícias da desgraça" , romance do Lourenço Murtarelli, autor d' "O cheiro do ralo", mais conhecido pela sua adaptação para o cinema, e só neste fim de semana resolvi dar uma chance real a ele.
Não que tivesse algo contra o livro, mas apesar da bem acabada edição da Companhia das Letras, ainda se tratava de título sobre o qual não tinha ouvido falar até a indicação de um conhecido, cujo gosto literário desconhecia por completo.
O próprio responsável pela sugestão havia me advertido: "é uma leitura um pouco nervosa. Querendo arriscar, vai por sua conta e risco!". Pouco animador, não?
Mesmo assim eu fui, por conta e risco, inspirada pela ideia da aposta pascaliana, um raciocínio interessante que deveria adotar mais vezes: se eu odiasse o livro, eu perderia no máximo o dinheiro, que sempre poderia ser recuperado em algum sebo.
Mesmo assim eu fui, por conta e risco, inspirada pela ideia da aposta pascaliana, um raciocínio interessante que deveria adotar mais vezes: se eu odiasse o livro, eu perderia no máximo o dinheiro, que sempre poderia ser recuperado em algum sebo.
Se gostasse, eu teria ganhado algumas horas de prazer, aprenderia mais coisas e adicionaria um nome à lista de autores nacionais cujos lançamentos importam pra mim.
Como o tempo andava escasso e outra leitura estava em curso, adiei o projeto até este domingo, quando, querendo respirar um pouco das digressões do livro que estou lendo, finalmente o tirei da estante. Daí, as 150 páginas se foram, em contínuo, do meio-dia às seis da tarde.
Me deixei levar pelos infortúnios do Miguel, um investigador de 40 anos e “acima do peso”, divorciado, que mora com o pai, aposentado que gasta os dias vendo programas de vendas. Sua namorada, uma manicure, é mãe de duas meninas, das quais uma come reboco da parede.
Num dezembro paulistano escaldante e histérico, como são todos, Miguel, o antiherói, tem a chance de acabar com parte de seus problemas aceitando um serviço pouco lícito de “higiene social", proposto pelo colega de polícia Pedro: eliminar alguns garotos que andavam aterrorizando o bairro.
Mas não é a questão de se ele aceita ou não ponto forte do livro. Aliadas à linguagem rasgada, fluida e ora semelhante a um roteiro de cinema, há passagens especialmente densas para o que poderia ser apenas um romance policial.
Discussões sobre obsessões, normalidade, fé, culpa, bem e mal fizeram do um livro um retrato interessante, e de fato nervoso, das lutas diárias com os demônios e monstros que nos fazem companhia, tema do diálogo entre Miguel e Osvaldo, um repórter e escritor policial -- alterego do autor?--, que transcrevo.
Num domingo aparentemente insosso, sem jogo do meu time, realizado no sábado, as deliciosas desgraças do Miguel fizeram minha alegria.
Osvaldo estaciona o carro em frente à porteira de uma chácara em Mogi das Cruzes.
Osvaldo estaciona o carro em frente à porteira de uma chácara em Mogi das Cruzes.
- Obrigado.
- Você fica me devendo uma história.
- Então eu vou te contar a minha e, se você quiser, você escreve um livro.
- E qual seria o título de um livro que contasse a sua história?
- "Os demônios", eu garanto, seria um bom título.
- Então será "Miguel e os demônios".
- Que seja.
Miguel estende a mão. Osvaldo a aperta.
- Continue com seus livros, Osvaldo. Continue a ler os filósofos. Eu te garanto que não há nada melhor que a ficção.
- Miguel, não se iluda, tudo é ficção. Não leve nada muito a sério, esse é o segredo da vida. Desfrute do tempo que te cabe. Não alimente os montros, porque eles só crescem.
- Isso é uma grande verdade. O problema é que nós não alimentamos os monstros, são eles que nos alimentam.
Imagem: São Miguel derrota Satanás, do pintor renascentista Rafael Sanzio, porque apesar dos demônios, ainda se vive.
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